Bem capaz…

Posted on January 10, 2010
Filed Under Contos, jornalismo | 1 Comment

Ricardo e sua namorada, Daniele, estavam sentados na praça de alimentação de um shopping qualquer. Um chamego daqui, um apego dali, um beijinho sincero ali e um beijo mais safado acolá. Daniele, como toda mulher que se preze, além de beijá-lo, também estava atenta a tudo e a todos. Foi quando, de súbito, parou tudo o que estava fazendo com Ricardo e solto um sonoro…

- Aaaaaaaaaaiiii! Que fooooooofooooooooo!

Ainda perplexo com o interrompimento não previsto daquilo tudo, Ricardo demorou para entender o que Daniele falava. Fitou-a por um momento e depois voltou seu rosto para a direção em que ela olhava. Deu um sorriso, bebeu um pouco do seu refrigerante. Com uma das mãos, mexeu o canudo no copo, para ver o movimento dos gelos, e iniciou uma conversa “foooooofaaaaaaaa” com a namorada.

- É! Tem razão, é um fofo.

Daniele se virou de súbito para ele. Pela primeira vez, após 15 namorados, encontrou alguém com quem pudesse dividir algo importante demais que não fosse sexo: papos sobre bebês. Encostou seus cotovelos na mesa, olhou atentamente para o namorado menos fofo que o bebê, mas um fofo na cabeça dela, para puxar o assunto.

- Vai dizer, é fofo, não?
- Super.
- É lindo.
- Sim, uma das coisas mais belas que um casal pode ter.

Mais uma vez ficou perplexa. Aquele era o cara da sua vida. Achar um bebê fofo, nessa humanidade desumana, como classificava Renato Russo?

- É sério o que estou falando. É uma das coisas mais belas que um casal pode ter…

Ricardo começou a filosofar. Daniele, prestou mais atenção naquele cara que passou a admirar mais do que apenas o sexo.

- Consegue unir mais as pessoas. Famílias, que antes não se aceitavam, começam a se aceitar…

Não acreditava naquilo que escutava. Esse cara era mesmo perfeito, pensou ela. Cada palavra era como uma bela música. “Acordar e ver aquele sorriso ingênuo para ti”, falava daqui.

- Mesmo depois daquela cagada básica em ti, tu acha graça daquilo tudo e ainda dá uma gargalhada, para depois beijar a fuça da criança. Aí ela percebe que tudo é uma brincadeira: não só caga em ti, como vomita também. O serviço é completo e, ironicamente, para os pais, é agradável.

Ela riu. “Meu Deus, é com esse cara que vou casar”, pensou novamente. Queria pegá-lo agora mesmo, levá-lo para uma cama e iniciar o ciclo vicioso de sexo, bebê, casamento, família, mais sexo, mais bebê, etcetera e tal. Até achar que era o ponto certo, fez o comentário com seu namorado. Ricardo sorriu, olhou para ela mais uma vez. Daniele também sorriu e preparou o ouvido para aquele comentário que só um ser perfeito como o seu namorado poderia fazer.

- Tu tá louca?

O sorriso virou alguma coisa como cara de incrédula.

- Tu sabe quanto custa manter um bebê? É quarto aqui, é berço lá, é carrinho acolá! Não dá, muito gasto.

Foi então que Daniele percebeu que os homens são todos iguais. Adoram fazer, mas arcar com as consequências, não. Isso, no pensamento dela, que não é o mesmo que o do autor.

Enquanto isso, em outra mesa, rolou um “ménage à trois” de discussão.

Comments

One Response to “Bem capaz…”

  1. Roberto on January 14th, 2010 3:03 am

    Cara, tu consegue dar cada final aos teus textos. Até eu estava me convencendo que o carinha gostava mesmo de criança, hehehe.

Leave a Reply




  • About

    This is an area on your website where you can add text. This will serve as an informative location on your website, where you can talk about your site.

  • Admin