Surpresa de aniversário
Posted on November 5, 2009
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Lá estava eu. Sentado naquela cadeira. O ambiente, escuro. Janelas fechadas e a única ventilação era proveniente do ar condicionado. Era engraçado: uma respirada e a fumaça era visualizada. “Se eu tivesse pelado, com toda a certeza, meu pinto se transformaria em um grão de bico”, pensei. Não precisei estar pelado: o frio deixou-o mesmo como um grão de bico.
Os segundos passavam. Pareciam horas. Queria sair dali, mas não me lembrava que tinha sido amarrado à cadeira. “Amigos filhos da puta, esses. Que presente de aniversário foram me dar, hein?”, comentei, em voz não muito alta, mas também não muito baixa. Ao olhar em minha volta que percebi porquê o meninão se tornou um pequeno bebê: eu realmente estava pelado. “Pelo menos não me violaram”, disse, suspirando profundamente.
“Não foram eles”, disse uma voz suave. Estava incrédulo. Quem era ela? “Eu é quem fiz isso”, acrescentou.
Olhei para os lados e nada encontrei. Aos poucos, passos foram dados. Vi duas mãos, dentro de duas longas luvas pretas, repousando em meus joelhos. Fixei meu olhar nelas, antes de ser chamado. “Aqui, bobinho”, sussurrou em meu ouvido. O pequeno bebê voltou ao seu tamanho natural.
A boca estava com um batom vermelho vivo. Procurei mais sobre seu rosto, mas como se fosse uma fã da Madonna, uma fita preta nos olhos não dava detalhes algum. Apenas os seus olhos, de um preto penetrante – a única coisa penetrante em mim, cabe salientar -, podiam ser visualizados. Nada além dos olhos, da testa, do nariz, da boca, e do desenho do rosto.
Mas só isso lembrava a Madonna. Os cabelos eram tingidos de negros. Nenhum cabelo é tão negro assim. “Praticamente uma modelo da L’Oreal”, disse à minha mente.
Beijou-me nos lábios, deu um sorriso malicioso e levantou-se. Nada mais vi – apenas ouvi. Ouvi aqueles passos abafados, afastando-se. “E nem poder bater uma vou poder, já que estou com as mãos atadas. Mas são uns filhos duma…”, tentei dizer, mas a sacana apertou um dos interruptores. A luz agora estava sobre ela. “A dama de negro”, lembro de ter dito. Uma risada leve, daquelas excitantes, saiu daquela boca.
Pude contemplar aquela escultura. Meias pretas que iam até o meio da coxa. Uma liga entre elas e a pequena calcinha era o que cobria a parte que ficou a mostra. A barriga e os seios estavam cobertos por um corpete. Não era possível ver os seios estourando: o desenho que o viado do estilista contornavam aquelas duas circunferências que, pareciam perfeitas.
As mãos estavam na cintura e os longos cabelos negros estavam em suas costas.
Uma suave melodia começou a sair de algum lugar e a dama de negro embalou seu corpo de acordo com o ritmo. Sensualidade, era o que ela transpirava. Meus olhos eram a única coisa que se mexiam. Lá embaixo não tinha mais o que fazer: já estava animadão.
Caminhou até mim. O indicador de sua mão esquerda encostou em meu ombro. Deu uma volta e ficou atrás de mim. As duas mãos deslizaram de meus ombros até um pouco abaixo de minha caixa toráxica. “Tadinho dele. As mãos não estão livres para poder se satisfazer”, sussurrou em meu ouvido direito. Mordiscou a orelha. “Não é?”.
Nada disse. Nenhuma palavra conseguiu sair de minha boca.
Suas mãos deslizaram de volta. Não estavam mais em meu corpo. A dama de negro caminhou e ficou de costas para mim. O rosto deu uma leve torcida na diagonal, para me olhar, de costas. Viu-me fixo em sua bunda perfeita. “Gostou do que viu?”, perguntou. Olhei-a e nada disse. Virou-se para frente de novo e aproveitei para mordê-la. Esse foi o único tapa em que não tive problemas de aceitar. Fui um cara malvado. E minhas mãos estavam atadas. Então, o que mais eu podia fazer para me defender?
De súbito, sentou-se em meu colo. Seu sexo, ainda coberto pela lingerie, encontrou o meu. A parte traseira das coxas deslizou sobre a frontal das minhas. Ela segurava-se firme nas bordas laterais da cadeira. O rosto novamente virou-se diagonalmente. A dama de negro me beijou com uma louca vontade. Agora, o meninão já era um homem completo de satisfação.
Demorei para perceber que minhas mãos estavam desatadas. Só notei quando ela disse: “Vai ficar aí parado?”.
Ao contrário de qualquer pivete afobado, me levantei devagar. Caminhei até ela. Olhei-a nos olhos, fixos. Percebi que ficou perplexa com a minha ação – ou falta dela, deve ter pensado. Seus olhos percorriam os meus, depois iam para a minha boca. A dominadora, enfim, estava dominada.
Segurei-a pela cintura e puxei para perto de mim. O beijo não foi nada tímido. Sabia quem ela era. Sabia o que queria. Sabia o que eu queria. E eu queria ela. Não somente no meu aniversário. Queria ela antes, mas a pouca idade me fazia relegar os sentimentos impróprios a segundo plano.
Sussurrei o nome dela no seu ouvido. Ela estremeceu.
Suas mãos agarraram minha nuca e nossas línguas estavam unidas. Volúpia. Era isso o que tinha naquela troca de carinho.
Grudei em suas nádegas. As pernas dela se envolveram em minha cintura. Enquanto a beijava, a parede ficava mais próxima. Uma prensada nem tão leve, mas nem tão dura, a fizeram gemer e soltar um “ai”, carregado de ar e tesão. Nos olhamos mais uma vez.
Ela mordeu os lábios de leve, ao sentir-me dentro dela. “Dedos ágeis, esse”, sussurrou, aos gemidos. Foram poucos os minutos, mas nem por isso sem intensidade. A cada movimento, nossos gemidos ficavam mais altos. Mesmo com luvas, era possível sentir aquelas unhas tentando me arranhar. Não sabia a marca do creme dental, mas os dentes estavam fortes. Minhas orelhas estão de prova.
A temperatura mínima do ar não foi o suficiente para dissipar o calor de nossos corpos. Ao finalizarmos tudo, extasiados, mas ainda grudados, olhávamos um ao outro, ofegantes.
“Eu sempre quis isso”, disse ela. Não pude dizer nada além de “Eu também”, enquanto ela retirava a máscara. Era errado, sabíamos. Mas justamente essa censura, essa proibição, é que nos motivou a agir dessa forma.
Vesti minhas roupas e saí porta afora. Nossos caminhos não se cruzaram mais, mas foi bom assim. Ficou aquele sentimento de que nada passou dos limites. Talvez continuar pudesse atrapalhar nossa vida social.
O aniversário era meu. Mas o presente não foi apenas para mim.
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