Inadmissível
Posted on September 23, 2009
Filed Under Comportamento | 2 Comments
- Não vou à aula hoje, pai – respondeu Fernandinho.
- Por quê? – perguntou Torres, tirando o jornal da frente de seu rosto para poder olhar nos olhos do filho, esperando uma boa resposta para não ir ao colégio.
Fernandinho puxou a aba do boné para trás, colocou o correntão de latão para fora da camiseta com o dobro do seu tamanho, respirou fundo e desandou a falar.
- Ah, pai, tô com vergonha…
Torres esmurrou a mesa. As xícaras, os pratos, a comida, tudo tremeu com a força do golpe. Olhou fixamente nos olhos de Fernandinho, esperando uma boa explicação.
- É o seguinte. A professora me humilhou na frente de todo mundo…
- Como assim, te humilhou na frente de todo mundo? – indagou.
A calma foi sendo perdida aos poucos. Fernandinho contou tudo. Que a professora o obrigou a pintar oito salas da escola em que estudava. Tudo isso, segundo o guri, foi uma punição imposta a ele de forma injusta, por causa de uma brincadeira. Tinha pichado apenas uma parede, e não as 32 que compõem os oito cômodos.
Enquanto a tremedeira do nervosismo aumentava, a explicação continuou a rolar: a professora falava para todo mundo que isso era muito pouco para o que ele fez, já que as paredes haviam sido pintadas há cerca de um mês, com o dinheiro de vários pais, inclusive os dele; que os outros deviam tomar a punição como exemplo, para não fazerem vandalismo igual. “Vandalismo, pai. Uma brincadeira chamada vandalismo… vê se pode?”.
A educanda teria, segundo ele, dito poucas e boas, como “se tu não pintares direito vou pôr no youtube” e “é um bobo da corte”. Lágrimas começaram a rolar no rosto de Fernandinho.
Mais um murro na mesa. Mais balancetes dos pratos, das xícaras. Vizinhos dizem que até a casa tremeu, tamanha era a raiva de Torres.
- Isso é inadmissível – berrou, para todos ouvirem.
- Também acho… – disse o guri.
- Acontecendo com um filho meu… – continuou o griteiro – Pago caro aquele colégio, porque tem os melhores professores, eles o mandam pintar a parede?
Levantou-se da cadeira, prestes a dar um sermão.
- Pintar a parede? Na frente de todo mundo? Onde já se viu?
A esposa começou a tremer… de medo.
- Humilhá-lo na frente de todo mundo?
Fernandinho viu o pai ali, prestes a defendê-lo. Estava tão eufórico com a reação que levantou-se aos poucos.
- Deixá-lo com vergonha, a ponto de não querer ir à aula?
Agora, já de pé, o guri era só confiança.
- Eu falei para eles, pai, que tu não ia deixar desse jeito!
- Mas e claro que não ficará! Tu verás!
A excitação de Fernandinho era tamanha. Estava prestes a abraçar o pai, puxar a carteira rapidamente e roubar uns R$ 50,00, como sempre faz, para poder comprar algo no shopping enquanto mata aula.
Subitamente, porém, não ouviu mais nada. Apenas um zumbido no seu ouvido direito. A dor era tamanha que ele não sabia de onde surgiu. Olhou para o pai, com medo. Um leve líquido, quente, escorreu pelas suas pernas.
- Seu filho da mãe. Pintar a parede foi uma pena muito ridícula – sentenciou.
- Na hora de fazer essas palhaçadas, de pagar de bonzão na frente dos amiguinhos, tu és bem homem, não é?
Fernandinho nada falou.
- Vai já te arrumar e vai para a aula. Se é homem o suficiente pra pichar a escola, é homem o suficiente para assumir os erros.
Sentou, para terminar o café. Antes do guri partir, soltou a última sentença.
- Pega aquele macacão de jardinagem. Hoje tu não vais pintar as salas, vais é cuidar das plantas.
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2 Responses to “Inadmissível”
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Eu queria que o final dessas histórias incluísse sempre filhos que aprendem a lição e pais que sabem avaliar a ação de professores. Mas. né?!
A sua história é boa. Façamos com que este desenrolar seja mais comum no futuro. Assim, mais adiante, será inadmissível que passe pelas cabeçinhas das criaturas mirins (ou não) esse tipo de (falta de) atitude.
Maravilha, o outro lado da moeda (como deveria ser). Infelizmente estamos acostumados a ver, cada vez mais, delinquentes serem transformados em vítimas. A banalização dos delitos cometidos na infância e adolescência são cada vez mais acariciados pelas entidades e por uma parcela hipócrita da sociedade. Ou seja, há uma inversão quase irreversível de valores. Parabéns.