Reprise de um fato antigo com final diferente

Posted on September 2, 2009
Filed Under Geral | 3 Comments

Acredito que foi no início de 2006 que tudo aconteceu. Lá estava eu, subindo a rua Marechal Floriano, no Centro de Porto Alegre, para poder chegar no fim da linha do ônibus Vila Nova, que me leva para a minha casa – que hoje eu não moro mais; vou só como visitante. Para tanto, eu tive de sair da calçada da direita e ir para a da esquerda, pois, ao chegar na avenida Salgado Filho, teria de caminhar mais alguns metros e esperar, esperar, esperar, esperar e esperar, até o veículo com chofer chegasse.

Como sabia que o risco de atropelamento naquela rua, por causa da multidão que caminha para lá e para cá, resolvi atravessá-la antes da faixa de segurança. Quinze metros são 15 metros, mas às vezes parece ser uma distância enorme – ainda mais quando se está com pressa. Ia de um canto ao outro quando senti um peso passar pelo meu calcanhar, subir meu tornozelo, um pouco da canela e depois sair de mim antes de chegar no joelho. Com o ocorrido, um grito meu, caí de costas no chão e, sabe-se lá como, tive um apagão de uns 10 segundos até perceber onde eu estava.

Ouvi gritos de pessoas na rua pedindo para o taxista parar. Levantei-me. Nada quebrado, mas uma dor insuportável na perna. “Não te vi atravessando”, respondeu o taxista. “Não me viu porque tava vendo a bunda da gostosa que passou do teu lado, filho da puta”, pensei em dizer. Só pensei, mesmo. Nessa hora, a educação falou mais alto.

Cheguei no hospital e o taxista deu no pé. Não estava nem aí. Conseguia caminhar e isso era o suficiente para mim. Esperei, acredito, umas três horas para ser atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do Hospital de Pronto Socorro (HPS) da capital gaúcha. Neste tempo, tive sangue frio para ligar à minha mãe e dizer-lhe que havia sido atropelado, mas que estava tudo bem.

Hoje, 2 de setembro de 2009, já não moro mais em Porto Alegre. Estava a caminho do Centro de Formação de Condutores Montenegro, onde faço minhas aulas práticas para me tornar um provável assassino do trânsito, já que um veículo é uma arma que muitos não sabem controlar e eu sou um cara que não tem muita confiança – tenho de trabalhar isso.

Sinal fechado para os carros no cruzamento da rua Santos Dumont com a Ramiro Barcellos. Atravessei a rua, porém não durou muito. Senti minhas pernas serem atingidas. O som delas quebradas me assustou. Meu corpo caiu fortemente sobre o carro, um Fiat Uno azul metálico. A violência do impacto, mesmo o motorista estando a uns 60km/h, quando fazia a curva da Ramiro Barcellos para ingressar na Santos Dumont, me jogou para o lado, próximo ao meio-fio. Caí no chão com violência e a cabeça sangrava muito, devido à forte batida que dei no pára-brisas antes de ser um super-homem sem controle de seu vôo. Ainda pude ver aquele motorista, com cara de ter uns 20 anos… o Lex Luthor da minha vida.

Tudo isso aconteceu em menos de cinco segundos. Na verdade, isso foi apenas um jogo de imagens que passou pela minha mente em menos de 10 segundos. Enquanto atravessava a rua, sabe-se lá o que me deu, fui olhar para o lado e vi aquele carro vindo para cima de mim e o motorista não fazer menção alguma de parar. Vidros embaçados, chuva um pouco intensa, e limpador de pára-brisas desativado. Dei um passo para trás, pensei “Filho da Puta!”, mas a irritação não conseguiu me fazer anotar a placa.

Continuei minha caminhada. Não podia atrasar-me para a aula. Porém, não consegui deixar de pensar que, talvez, dessa vez, não conseguiria ligar para a minha mãe e dizer-lhe que fui atropelado. Que, mais um talvez aqui, não poderia ver o nascimento do bebê do meu irmão e da minha cunhada, o qual serei padrinho e amarei muito. Risadas, piadas, amores e desamores, nada disso aconteceria se, quem sabe por obra de Deus, eu não tivesse parado, olhado para o lado e dado um passo para trás.

“Oi menino. Foi tu quem quase foi atropelado agora há pouco, né?”, me perguntou uma senhora, enquanto abria sua loja. Ao receber minha afirmativa, falou “Pois é, eu vi. Que horror. Era um Fiat Uno, não?”, continuou. Mais uma vez assenti e continuei a caminhar.

Vivo, com ossos tudo no lugar, com a cabeça intacta. Mas com o nervosismo pegando, a tremedeira ativada, a mente avoada, e um sentimento de ter nascido de novo.

Posso não ser religioso, mas acredito que o fato de crer em Deus me salvou hoje. Mas isso não significa que irei à igrejas agradecer. Ele sabe que agradeço todos os dias, e ir para um senta-e-levanta ou a um fala-que-te-escuto me soaria mais como um castigo do que uma bênção. =P

Comments

3 Responses to “Reprise de um fato antigo com final diferente”

  1. Jussara on September 10th, 2009 12:44 pm

    Filho,
    Deus existe, ama, cuida dos seus filhos e lhes dá o livre arbitrio… por isso Ele é Deus e não um humano como nós.
    Eu sempre agradeço Sua benevolência e amor incondicional e peço Sua proteção.
    Mais uma vez, tenho motivo para agradecê-LO, por ter protegido o meu menino.
    Beijos.

  2. Gio on September 17th, 2009 11:33 pm

    Faixa de segurança.
    Faixa de segurança.
    Faixa de segurança.

    Não está adiantando. Nem para motoristas nem para pedestres. Nem um dos dois sabe o que significa.
    Nem um dois entende.
    Respeitar?? Está muito longe do compreender humano.

    Estou pensando somente nas faixas de segurança…

  3. ygyryvafyzy on September 25th, 2009 12:27 pm

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