E agora?

Posted on March 4, 2010
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Chegou em casa cansado após um dia de trabalho. Foi até seu quarto. Tirou a camiseta, as calças, as meias e os sapatos. Ficou apenas com a cueca. Olhou para os lados e viu a bermuda ali, atirada em cima da cama. Resolveu botá-la.

Coçou a cabeça e olhou novamente para os lados. “Nada pra fazer”, pensou. Até que repensou e viu o que tinha para fazer.

Deslocou-se até a cozinha. Abriu a geladeira. Em uma das prateleiras, uma garrafa de Coca-Cola 2 litros pela metade. Pura cafeína com água gaseificada. “Isso um dia vai te matar”, disse o seu pensamento. “Pelo menos vou morrer feliz”, retrucou ao próprio pensamento. Copo? Nem pensar. Bebeu quase metade da metade direto pelo bico. “Ninguém tá vendo, mesmo”, deu de ombros.

Guardou a garrafa na geladeira. Bem tampada, para não dar merda depois. Arrotou e pensou mais uma vez. “E agora, o que fazer?”.

Foi até o escritório. Ligou o computador e a televisão. Após perceber que um determinado canal da tv a cabo passou, pelo terceiro dia consecutivo o mesmo episódio do mesmo seriado, desistiu. Colocou no canal aberto. pelo menos a novela tem um capítulo diferente por dia - com exceção da reprise do último, mas ainda está longe para que isso aconteça.

Computador ligado. Windows aberto. Word aberto. Digitou algumas letras. Deletou-as. Digitou outras letras. Não gostou e sumiu com elas. Cabeça sem ideias. “Deve ser o trabalho”. Ele só pensa, não age.

Alguém o chamou. Não, não era nenhum familiar seu. Amigos no MSN. E desandou a falar. Enfim, achou alguma coisa para fazer. Porém, não teve nada pra escrever no blog. Agora, não sabe mais o que fazer - a não ser continuar o papo no msn.

O “casinho” do pai

Posted on January 17, 2010
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- Mãe, tu nem sabe… - iniciou a conversa o filho.

- O quê, filho? - indagou a mãe.

- O pai tá com um casinho novo!

- O QUÊ? - gritou a mãe, do outro lado da linha.

O coração da velha não palpitava. Pulava, na verdade, em seu peito. Aquele “bum, bum, bum” parecia um monte de minas terrestres, em que os soldados costumavam pisar, livres, leves e soltos, nas guerras dá década de 1960 para trás.

O sentimento era como o de uma mina terrestre. Alguma coisa em seu corpo estava fora do lugar. Em vez de pernas, braços e cabeças, era o coração, mesmo, quem estava saindo.

Ela não entendia como o marido, com quem convivia há 50 anos, pudera fazer isso. O amor deles não era bonito? Não eram considerados exemplo pelos outros? Afinal, nesse mundo estranho de hoje, um matrimônio durar cinco anos é motivo de euforia. O deles durava dez vezes mais, e agora essa “novidade” na vida?

A mente fazia essas perguntas mais profundas. Ao filho, fazia as mais costumazes.

- E… ele… está… feliz? - perguntou, pausadamente, com voz de choro.

- Não, ele não está feliz…

Sentimento de alívio.

- Ele está eufórico! - bradou o filho.

“Desgraçado”, resmungou para si. O filho falou com tanta vontade, com tanta alegria, que podia ter certeza de que ele sabia de tudo há algum tempo. Mas esse cretino, que saiu de seu ventre, não podia esperar pelo que viria nos próximos dias. Seria deserdado.

A esposa do pai feliz chegou em casa triste. Sentou no sofá depois de ter pego aquela cervejinha gelada do futuro ex-maridão. Bebeu toda de um gole só. Levantou-se, pegou mais uma lata de cerveja, e engoliu direto.

Poucos minutos depois, chegou o pai feliz. Viu a cara da esposa triste. Perguntou o que foi, mas ela não respondeu.

- Amor, preciso te contar uma coisa…

- Eu sei!

- Como assim, sabe?

- Eu sei de tudo, seu cretino!

- Ei, calma lá!

- O nosso filho me contou tudo. Tu tem um casinho novo!

O pai se lembrou da primeira brochada que deu na vida. Olhou para baixo, depois encarou o filho, para tornar a olhar para baixo.

- Eu ia te contar… - resmungou.

- Ia nada! Tu ia me abandonar!

- Como assim, abandonar?

- Ora, bolas. Um velho, como tu, de casinho, e novo ainda por cima - eu nem sabia que tu tinha um velho - vai querer o que com uma senhora de idade avançada como eu?

Ele sorriu. Ela ficou louca em ver aquele sorriso. Ao perceber o primeiro sinal de tapa na cara que levaria, escapou e foi para a garagem. Ligou a luz tão logo a futura, quem sabe, ex-esposa chegou.

Ela chorou. Muito. Mas de alívio. Ali estava o casinho novo do marido. E ela gostou.

- Eu sei que estamos sem dinheiro, mas não resisti…

- Ah, meu amor!

E foi correndo dar um beijo gostoso no velho. O filho ficou com nojo. Para não ver aquela cena, perguntou ao pai.

- Posso dar uma volta?

O pai não respondeu. Ele entendeu como um sim. Pegou as chaves do novo carro da família, um Kazinho, e foi andar por aí. Qualquer coisa na rua é melhor do que imaginar os pais transando.

Bem capaz…

Posted on January 10, 2010
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Ricardo e sua namorada, Daniele, estavam sentados na praça de alimentação de um shopping qualquer. Um chamego daqui, um apego dali, um beijinho sincero ali e um beijo mais safado acolá. Daniele, como toda mulher que se preze, além de beijá-lo, também estava atenta a tudo e a todos. Foi quando, de súbito, parou tudo o que estava fazendo com Ricardo e solto um sonoro…

- Aaaaaaaaaaiiii! Que fooooooofooooooooo!

Ainda perplexo com o interrompimento não previsto daquilo tudo, Ricardo demorou para entender o que Daniele falava. Fitou-a por um momento e depois voltou seu rosto para a direção em que ela olhava. Deu um sorriso, bebeu um pouco do seu refrigerante. Com uma das mãos, mexeu o canudo no copo, para ver o movimento dos gelos, e iniciou uma conversa “foooooofaaaaaaaa” com a namorada.

- É! Tem razão, é um fofo.

Daniele se virou de súbito para ele. Pela primeira vez, após 15 namorados, encontrou alguém com quem pudesse dividir algo importante demais que não fosse sexo: papos sobre bebês. Encostou seus cotovelos na mesa, olhou atentamente para o namorado menos fofo que o bebê, mas um fofo na cabeça dela, para puxar o assunto.

- Vai dizer, é fofo, não?
- Super.
- É lindo.
- Sim, uma das coisas mais belas que um casal pode ter.

Mais uma vez ficou perplexa. Aquele era o cara da sua vida. Achar um bebê fofo, nessa humanidade desumana, como classificava Renato Russo?

- É sério o que estou falando. É uma das coisas mais belas que um casal pode ter…

Ricardo começou a filosofar. Daniele, prestou mais atenção naquele cara que passou a admirar mais do que apenas o sexo.

- Consegue unir mais as pessoas. Famílias, que antes não se aceitavam, começam a se aceitar…

Não acreditava naquilo que escutava. Esse cara era mesmo perfeito, pensou ela. Cada palavra era como uma bela música. “Acordar e ver aquele sorriso ingênuo para ti”, falava daqui.

- Mesmo depois daquela cagada básica em ti, tu acha graça daquilo tudo e ainda dá uma gargalhada, para depois beijar a fuça da criança. Aí ela percebe que tudo é uma brincadeira: não só caga em ti, como vomita também. O serviço é completo e, ironicamente, para os pais, é agradável.

Ela riu. “Meu Deus, é com esse cara que vou casar”, pensou novamente. Queria pegá-lo agora mesmo, levá-lo para uma cama e iniciar o ciclo vicioso de sexo, bebê, casamento, família, mais sexo, mais bebê, etcetera e tal. Até achar que era o ponto certo, fez o comentário com seu namorado. Ricardo sorriu, olhou para ela mais uma vez. Daniele também sorriu e preparou o ouvido para aquele comentário que só um ser perfeito como o seu namorado poderia fazer.

- Tu tá louca?

O sorriso virou alguma coisa como cara de incrédula.

- Tu sabe quanto custa manter um bebê? É quarto aqui, é berço lá, é carrinho acolá! Não dá, muito gasto.

Foi então que Daniele percebeu que os homens são todos iguais. Adoram fazer, mas arcar com as consequências, não. Isso, no pensamento dela, que não é o mesmo que o do autor.

Enquanto isso, em outra mesa, rolou um “ménage à trois” de discussão.

Encaixou?

Posted on January 5, 2010
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Os dois estavam suspirando demais. Não queriam acordar ninguém. Por isso fizeram um acordo: ficar o mais quieto possível. Tentaram de tudo quanto é jeito, mas não acreditavam estarem sendo bem sucedidos. Volta e meia alguém acendia a luz para saber o que estava acontecendo por perto, mas eram tão mal sucedidos quanto Serginho e Fred, como Sérgio e Frederico se chamam desde que se conheceram.

O suor escorria por aqueles rostos. Fred mordia os lábios enquanto os grunhidos de força de Serginho ficavam um pouco alto demais para o gosto deles.

- Ô Serginho, te controla aí – resmungou Fred.

Serginho tentou manter o controle, mas viu que estava cada vez mais difícil.

- Pô, cara, isso aqui ta apertado demais – retrucou Serginho.

Fred não gostou nada do que ouviu. Disse para Serginho usar uma proteção, mas o mané não quis. Virou os olhos para cima antes de suspirar mais uma vez.

Foram longos quinze minutos nessa discussão e nessa gemeção toda. O medo deles era acordar todo mundo. Sabiam que, se assim fizessem, ninguém acreditaria na história que contariam depois.

Fred tentou segurar a onda, mas não conseguiu. Após uma forte investida de Serginho, deu um grito de dor.

- AAaaaaaaah, seu cretino. Eu disse para não fazer assim…

- Cala a boca, cara, daqui a pouco todo mundo vai acordar.

- E eu com isso. Tá doendo demais essa porra…

As luzes acenderam. Portas abriram. Rostos viraram-se para a escadaria. Fred e Serginho agora suavam frio. O segredo estava, enfim, descoberto.

- Arrá! Eu sabia! – gritou Valdomira, a síndica.

- Sabia o que, dona Valdomira?

- O que vocês faziam esse tempo todo. Acharam que ninguém descobriria?

Os dois deram-se por vencido. Mas, antes, fizeram um pedido à Valdomira.

- Ô dona Valdomira, a senhora pode fazer um favor? – indagou Serginho.

- Depende… – disse ela.

- Não conta nada para o meu pai não… – continuou.

- E por quê? Posso saber?

- Se ele souber que nós estamos devolvendo essa mobília, nos mata. Eu e o meu irmão, Fred, não gostamos nada desse armário e vamos trocar por um vídeo-game.
Valdomira assentiu. Sabia que o pai dos dois não acreditaria nessa história. Mas entendia os irmãos: aquele armário era, mesmo, tenebroso.

Espírito natalino

Posted on December 27, 2009
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Natal. Data festiva. Data em que todo mundo gasta grana para dar o melhor presente. Ou o “menos pior” presente. Vai de cada um e de cada carteira.

Eu estava atravessando uma das ruas da Capital, onde meus pais moram, quando vi algo de chamar a atenção. Um senhor, de poucos cabelos grisalhos – o resto ele perdeu -, camisa verde, aberta abotoada até a metade, calça social preta, onde saía, do bolso esquerdo, uma chave de carro, e aquelas sandálias velhas que todo cara velho, tipo o teu ou o meu pai, adora usar.

Eis que o velho parou na frente de um guri que ficava chorando porque a mãe dele disse que, como não foi um bom menino, não ganharia um presente. Ficou de joelhos para o guri, encarou-o nos olhos, e falou, em um tom leve e agradável, como todo bom velhinho.

- Essa data representa o nascimento de Jesus. Não temos que nos importar com presentes. Jesus nasceu para nos ensinar muito. Ele nos ensinou a vida e morreu crucificado para nos salvar.

Os olhos da criança se encheram de lágrimas sinceras. Vendo aquela cena, desembuchou mais a filosofia bíblica.

- Nessa época do ano, não devemos lembrar só de Papai Noel. Vocês, crianças, têm que se lembrar de Jesus. Foi ele quem nos deu essa vida. O Papai Noel é só para desviar a atenção e nos fazer esquecer de quem realmente importa. Que é quem?

Perguntou para o menino. O guri enxugou os olhos e fitou o velhinho. Abriu um sorriso e se virou para a mãe.

- Viu, mãe? Nessa época do ano devemos lembrar o nascimento de Jesus.
Sim, meu filho.

O velhinho se levantou, com sensação de dever cumprido. Olhou para trás e, quando menos esperava, levou uma bolsada no rosto.

- Seu velho palhaço. Por que tinha que falar essa baboseira de nascimento de Jesus?

O senhor, incrédulo, tentou argumentar.

- Mas é a verdade. É isso que simboliza o Natal.

Ainda com raiva, a mãe finalizou o assunto.

- O problema, meu senhor, é que meu filho se chama Jesus. Agora ele tá se achando a bolachinha recheada do pacote…

Naquele momento, anotei mentalmente: “Melhor ter um filho chamado Valdisnei do que um Jesus…”

Simples assim

Posted on November 7, 2009
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Avistou-a sentada no banquinho da lanchonete. Estava linda como sempre. O suco de laranja estava sobre a mesa e ela mexia o conteúdo com o canudo. Além de linda, estava entediada.

- Oi - ele disse.
- Oi. Senta aí - ela respondeu.

Ele estranhou o tom dela. Era simpático, mas não muito feliz. Ainda estranhando tudo aquilo, obedeceu. Sentou-se e ficaram frente à frente.

- Olha só, eu preciso te dizer uma coisa… - ela começou

Aquele “eu preciso te dizer uma coisa” despertou-lhe a atenção. Ela nunca havia falado desse jeito. Aos poucos começou a ouvir que “não dá mais”, e “não está mais dando certo”, misturando um pouco de “acho que fomos rápido demais” e com uma pitada de “também acho que tu entendeu errado”.

Estava confuso com tudo aquilo. Foi ela que, desde o início do relacionamento, há cerca de seis meses, tomou a iniciativa. Insinuou-se para ele. Disse que queria ficar com ele, aproveitar cada momento, tal e coisa, coisa e tal. E agora ele é quem havia entendido errado? Ele é quem havia pedido para namorar cedo demais?

- Acho que devemos parar por aqui - ela sentenciou.

Olhou para aqueles olhos verdes. Suas mãos, que estavam sobre as dela, foram para a nuca. Aproximou-se o máximo que pode, para encará-la. Deu um sorriso e insinuou um beijo. Ao que ela foi responder com outro, disse.

- Tudo bem.

Levantou-se de súbito e preparava-se para sair do local quando foi indagado.

- É só isso que tem a dizer? Tudo bem?

Respondeu seca e diretamente. “Eu só te pedi em namoro porque tu demonstrou que queria”, foi o primeiro argumento. “Nesses seis meses, tudo deu certo, e agora tu vem dizer que, do nada, era nada disso que tu pensava?”, acrescentou. “Então, era isso. Já que tu não quer, não tem por que eu ficar aqui”.

Ela o fitou incrédula. Como e que ele podia dizer isso de forma tão áspera e direta?

- E tu não vai nem pedir para voltar?

- Não.

- Mas por que?

- Ué. Foi tu quem disse que não quer mais. Quem achava que eu tinha entendido errado. Então, não sou eu quem tenho que pedir para voltar.

- Não precisa pedir para voltar. Mas não vai nem tentar me fazer acreditar que estou errada?

Encararam-se novamente. Pensamentos vieram à sua cabeça. O momento que passaram juntos foi bom. A atração não era apenas física, mas sentimental também. Mas, no momento, era mais a primeira do que a segunda opção. Pensou mais um pouco e disse.

- Pensando bem… - disse, retornando a sentar-se.

- Não vale a pena. Tchau pra ti.

Se levantou novamente, pegou o celular e discou para alguém. Olhou para trás e disse “Amigos?”.

Virou-se e continuou a sua vida.

Surpresa de aniversário

Posted on November 5, 2009
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Lá estava eu. Sentado naquela cadeira. O ambiente, escuro. Janelas fechadas e a única ventilação era proveniente do ar condicionado. Era engraçado: uma respirada e a fumaça era visualizada. “Se eu tivesse pelado, com toda a certeza, meu pinto se transformaria em um grão de bico”, pensei. Não precisei estar pelado: o frio deixou-o mesmo como um grão de bico.

Os segundos passavam. Pareciam horas. Queria sair dali, mas não me lembrava que tinha sido amarrado à cadeira. “Amigos filhos da puta, esses. Que presente de aniversário foram me dar, hein?”, comentei, em voz não muito alta, mas também não muito baixa. Ao olhar em minha volta que percebi porquê o meninão se tornou um pequeno bebê: eu realmente estava pelado. “Pelo menos não me violaram”, disse, suspirando profundamente.

“Não foram eles”, disse uma voz suave. Estava incrédulo. Quem era ela? “Eu é quem fiz isso”, acrescentou.

Olhei para os lados e nada encontrei. Aos poucos, passos foram dados. Vi duas mãos, dentro de duas longas luvas pretas, repousando em meus joelhos. Fixei meu olhar nelas, antes de ser chamado. “Aqui, bobinho”, sussurrou em meu ouvido. O pequeno bebê voltou ao seu tamanho natural.

A boca estava com um batom vermelho vivo. Procurei mais sobre seu rosto, mas como se fosse uma fã da Madonna, uma fita preta nos olhos não dava detalhes algum. Apenas os seus olhos, de um preto penetrante – a única coisa penetrante em mim, cabe salientar -, podiam ser visualizados. Nada além dos olhos, da testa, do nariz, da boca, e do desenho do rosto.

Mas só isso lembrava a Madonna. Os cabelos eram tingidos de negros. Nenhum cabelo é tão negro assim. “Praticamente uma modelo da L’Oreal”, disse à minha mente.

Beijou-me nos lábios, deu um sorriso malicioso e levantou-se. Nada mais vi – apenas ouvi. Ouvi aqueles passos abafados, afastando-se. “E nem poder bater uma vou poder, já que estou com as mãos atadas. Mas são uns filhos duma…”, tentei dizer, mas a sacana apertou um dos interruptores. A luz agora estava sobre ela. “A dama de negro”, lembro de ter dito. Uma risada leve, daquelas excitantes, saiu daquela boca.

Pude contemplar aquela escultura. Meias pretas que iam até o meio da coxa. Uma liga entre elas e a pequena calcinha era o que cobria a parte que ficou a mostra. A barriga e os seios estavam cobertos por um corpete. Não era possível ver os seios estourando: o desenho que o viado do estilista contornavam aquelas duas circunferências que, pareciam perfeitas.

As mãos estavam na cintura e os longos cabelos negros estavam em suas costas.

Uma suave melodia começou a sair de algum lugar e a dama de negro embalou seu corpo de acordo com o ritmo. Sensualidade, era o que ela transpirava. Meus olhos eram a única coisa que se mexiam. Lá embaixo não tinha mais o que fazer: já estava animadão.

Caminhou até mim. O indicador de sua mão esquerda encostou em meu ombro. Deu uma volta e ficou atrás de mim. As duas mãos deslizaram de meus ombros até um pouco abaixo de minha caixa toráxica. “Tadinho dele. As mãos não estão livres para poder se satisfazer”, sussurrou em meu ouvido direito. Mordiscou a orelha. “Não é?”.

Nada disse. Nenhuma palavra conseguiu sair de minha boca.

Suas mãos deslizaram de volta. Não estavam mais em meu corpo. A dama de negro caminhou e ficou de costas para mim. O rosto deu uma leve torcida na diagonal, para me olhar, de costas. Viu-me fixo em sua bunda perfeita. “Gostou do que viu?”, perguntou. Olhei-a e nada disse. Virou-se para frente de novo e aproveitei para mordê-la. Esse foi o único tapa em que não tive problemas de aceitar. Fui um cara malvado. E minhas mãos estavam atadas. Então, o que mais eu podia fazer para me defender?

De súbito, sentou-se em meu colo. Seu sexo, ainda coberto pela lingerie, encontrou o meu. A parte traseira das coxas deslizou sobre a frontal das minhas. Ela segurava-se firme nas bordas laterais da cadeira. O rosto novamente virou-se diagonalmente. A dama de negro me beijou com uma louca vontade. Agora, o meninão já era um homem completo de satisfação.

Demorei para perceber que minhas mãos estavam desatadas. Só notei quando ela disse: “Vai ficar aí parado?”.

Ao contrário de qualquer pivete afobado, me levantei devagar. Caminhei até ela. Olhei-a nos olhos, fixos. Percebi que ficou perplexa com a minha ação – ou falta dela, deve ter pensado. Seus olhos percorriam os meus, depois iam para a minha boca. A dominadora, enfim, estava dominada.

Segurei-a pela cintura e puxei para perto de mim. O beijo não foi nada tímido. Sabia quem ela era. Sabia o que queria. Sabia o que eu queria. E eu queria ela. Não somente no meu aniversário. Queria ela antes, mas a pouca idade me fazia relegar os sentimentos impróprios a segundo plano.

Sussurrei o nome dela no seu ouvido. Ela estremeceu.
Suas mãos agarraram minha nuca e nossas línguas estavam unidas. Volúpia. Era isso o que tinha naquela troca de carinho.

Grudei em suas nádegas. As pernas dela se envolveram em minha cintura. Enquanto a beijava, a parede ficava mais próxima. Uma prensada nem tão leve, mas nem tão dura, a fizeram gemer e soltar um “ai”, carregado de ar e tesão. Nos olhamos mais uma vez.

Ela mordeu os lábios de leve, ao sentir-me dentro dela. “Dedos ágeis, esse”, sussurrou, aos gemidos. Foram poucos os minutos, mas nem por isso sem intensidade. A cada movimento, nossos gemidos ficavam mais altos. Mesmo com luvas, era possível sentir aquelas unhas tentando me arranhar. Não sabia a marca do creme dental, mas os dentes estavam fortes. Minhas orelhas estão de prova.

A temperatura mínima do ar não foi o suficiente para dissipar o calor de nossos corpos. Ao finalizarmos tudo, extasiados, mas ainda grudados, olhávamos um ao outro, ofegantes.

“Eu sempre quis isso”, disse ela. Não pude dizer nada além de “Eu também”, enquanto ela retirava a máscara. Era errado, sabíamos. Mas justamente essa censura, essa proibição, é que nos motivou a agir dessa forma.

Vesti minhas roupas e saí porta afora. Nossos caminhos não se cruzaram mais, mas foi bom assim. Ficou aquele sentimento de que nada passou dos limites. Talvez continuar pudesse atrapalhar nossa vida social.

O aniversário era meu. Mas o presente não foi apenas para mim.

Educação universitária

Posted on November 3, 2009
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Dois amigos estavam em uma palestra na universidade que estudam. Foi quando eles viram uma bela loira, alta, de olhos verdes claros como oceano. Notaram aquele corpo exuberante: par de coxas excitantes, barriga sarada e uma comissão de frente de dar inveja a qualquer siliconada – pois eram naturais.

Algumas mulheres, porém, começaram a falar mal da dita cuja. Foi então que perceberam aquilo que classificaram como falta de vestimenta. Uma mini-saia que deixavam aquelas belas coxas aparecendo. Decote que salientavam aquela comissão de frente de dar inveja a qualquer siliconada, além de deixar a mostra o piercing daquela barriga sarada.

- Meu, olha aquela vadia – disse Carlos.
- Pois é, velho, como é que pode uma coisa dessas? – retrucou Gerônimo
- Ta certo que é gostosa, mas não precisa se vestir igual a uma puta.
- É, cara, concordo contigo. Olha aquela saia!
- Falta de saia, não é?
- Isso. Falta de saia. E aqueles peitos…
- Estão explodindo.
- Essa guria não recebeu educação?
- Acho que não.
- Claro que não. Como eu disse, onde já se viu vir para uma universidade assim?

A revolta era tanta que começaram a gritar palavras de ordem.

- Sai daí, sua puta!
- É! Volta pro puteiro que tu veio.
- Isso! Kalibu 4000 e Tia Carmem é o teu lugar.
- Quanto que é o programa?

O coro aumentou. A guria não sabia mais onde se meter. As lágrimas, de raiva, brotaram em seu rosto. Não se conteve e saiu do auditório, sob as vaias dos falsos puritanos e das invejosas.

- Bem, uma a menos.
- Concordo.
- Mas olha lá. Lá vem outra. Sai daí, vaca! – esbravejou Carlos.

Foi então que tomou um belo soco no olho esquerdo.

- Que foi, cara? Por quê isso?
- Aquela é minha namorada.
- Ah! Foi mal, aí…

O valor da amizade

Posted on October 27, 2009
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Amigos há anos, é isso que eles são. Conhecem a vida um do outro como se fossem irmãos. Ou, como preferem dizer, “melhores amigos”, porque a dupla insiste em dizer que amigo se escolhe, enquanto que irmão não.

Frederico, também conhecido como Fred, é quem estava com tudo em cima. A situação em que se encontrava era a mais aguardada por Dagoberto. E Fred sabia disso. E a situação toda é que abalou a forte amizade que tinham.

Dagoberto permaneceu imóvel enquanto via o sucesso do amigo que durante um tempo era seu ex (ex-amigo, é bom deixar claro). Tudo o que fizera nos últimos dias era para estar naquele lugar. Aproveitar os momentos que Fred desfrutava. “Filho da mãe, ele traiu a amizade”, era o que pensava.

E Fred, por mais que tentasse argumentar, não conseguia tirar da mente do ex-amigo aquele pensamento chato. “Traição, onde já se viu? Se eu conquistei, foi por méritos meus”, era o que ficava em sua mente. Não comentava nada com ninguém, porque ninguém era confiável - apenas Dagoberto, mas agora não eram mais íntimos.

Foi então que Fred percebeu o ex-amigo com os olhos prestes a lacrimejar. Não saberia dizer se era raiva, emoção, sabe-se lá o que. A situação toda, a que provocou o fim de uma amizade longa, começou a ficar chata para ele. E pensar que estava tão próximo de chegar onde mais almejava. “Eu só posso ser louco…”, pensou novamente.

Saiu de onde estava. Todos pararam para olhar, sem entender nada. Fred deslocou-se até o canto, onde o ex-amigo estava. Olhou-o fixamente e disse “Vai lá”.

Dagoberto não entendeu de início. “Como assim, vai lá?”, perguntou. “Tu conquistou por mérito, é tu quem deverias estar lá”, argumentou. Fred não falou nada por um tempo. Deu um pequeno tapa nas costas do então ex-amigo e disse “Tu é quem deveria estar lá. Eu me intrometi e estraguei tudo”, retrucou. “E tudo isso por algo momentâneo. Nem tu, nem ela merecem isso”, respondeu, com a voz embargada.

O ex-amigo deu um abraço no outro ex-amigo. Foi aí que perceberam que a amizade nunca foi perdida. Dagoberto dirigiu-se até o ponto em que estava. Olhou nos olhos dela e disse. “Agora, sua máquina filha da puta, tu vai saber com quem é que se meteu”, gritou. Fred sorriu e saiu do estabelecimento, mas sem deixar de ouvir um “Ei, amigo, não te preocupa. A tua fichinha vai ser bem recompensada”.

Quem diria que o recorde em um jogo de luta seria algo tão importante. =P

Inadmissível

Posted on September 23, 2009
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- Não vou à aula hoje, pai - respondeu Fernandinho.

- Por quê? - perguntou Torres, tirando o jornal da frente de seu rosto para poder olhar nos olhos do filho, esperando uma boa resposta para não ir ao colégio.

Fernandinho puxou a aba do boné para trás, colocou o correntão de latão para fora da camiseta com o dobro do seu tamanho, respirou fundo e desandou a falar.

- Ah, pai, tô com vergonha…

Torres esmurrou a mesa. As xícaras, os pratos, a comida, tudo tremeu com a força do golpe. Olhou fixamente nos olhos de Fernandinho, esperando uma boa explicação.

- É o seguinte. A professora me humilhou na frente de todo mundo…

- Como assim, te humilhou na frente de todo mundo? - indagou.

A calma foi sendo perdida aos poucos. Fernandinho contou tudo. Que a professora o obrigou a pintar oito salas da escola em que estudava. Tudo isso, segundo o guri, foi uma punição imposta a ele de forma injusta, por causa de uma brincadeira. Tinha pichado apenas uma parede, e não as 32 que compõem os oito cômodos.

Enquanto a tremedeira do nervosismo aumentava, a explicação continuou a rolar: a professora falava para todo mundo que isso era muito pouco para o que ele fez, já que as paredes haviam sido pintadas há cerca de um mês, com o dinheiro de vários pais, inclusive os dele; que os outros deviam tomar a punição como exemplo, para não fazerem vandalismo igual. “Vandalismo, pai. Uma brincadeira chamada vandalismo… vê se pode?”.

A educanda teria, segundo ele, dito poucas e boas, como “se tu não pintares direito vou pôr no youtube” e “é um bobo da corte”. Lágrimas começaram a rolar no rosto de Fernandinho.

Mais um murro na mesa. Mais balancetes dos pratos, das xícaras. Vizinhos dizem que até a casa tremeu, tamanha era a raiva de Torres.

- Isso é inadmissível - berrou, para todos ouvirem.

- Também acho… - disse o guri.

- Acontecendo com um filho meu… - continuou o griteiro - Pago caro aquele colégio, porque tem os melhores professores, eles o mandam pintar a parede?

Levantou-se da cadeira, prestes a dar um sermão.

- Pintar a parede? Na frente de todo mundo? Onde já se viu?

A esposa começou a tremer… de medo.

- Humilhá-lo na frente de todo mundo?

Fernandinho viu o pai ali, prestes a defendê-lo. Estava tão eufórico com a reação que levantou-se aos poucos.

- Deixá-lo com vergonha, a ponto de não querer ir à aula?

Agora, já de pé, o guri era só confiança.

- Eu falei para eles, pai, que tu não ia deixar desse jeito!

- Mas e claro que não ficará! Tu verás!

A excitação de Fernandinho era tamanha. Estava prestes a abraçar o pai, puxar a carteira rapidamente e roubar uns R$ 50,00, como sempre faz, para poder comprar algo no shopping enquanto mata aula.

Subitamente, porém, não ouviu mais nada. Apenas um zumbido no seu ouvido direito. A dor era tamanha que ele não sabia de onde surgiu. Olhou para o pai, com medo. Um leve líquido, quente, escorreu pelas suas pernas.

- Seu filho da mãe. Pintar a parede foi uma pena muito ridícula - sentenciou.

- Na hora de fazer essas palhaçadas, de pagar de bonzão na frente dos amiguinhos, tu és bem homem, não é?

Fernandinho nada falou.

- Vai já te arrumar e vai para a aula. Se é homem o suficiente pra pichar a escola, é homem o suficiente para assumir os erros.

Sentou, para terminar o café. Antes do guri partir, soltou a última sentença.

- Pega aquele macacão de jardinagem. Hoje tu não vais pintar as salas, vais é cuidar das plantas.

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